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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

                                                                   Augusto dos Anjos

Meu amor é um castelo
ao trôpego, uma parede
ao bêbado, o sutil desviar de sua sede
ao orador, seu presbitério

Meu amor é um castelo
que sob seu chão não há calabouço
e em sua torre de pilastras não necessita jurisdição
pois a cada um é devido seu quinhão
em que o espiritual não se queda ao balouço

 

Meu amor é um castelo

que se aliou ao seu reino
que em tamanho é diminuto
que em glória é inúmero
que em governança é inspiração de Epicuro

 

Meu amor é um castelo
situado na mais funda cavidade
em que nele assola a ferocidade
e a pretenção de infinitude
e que a seus cidadãos não ilude

Meu amor é um castelo
não há bárbaro para invadi-lo
não há sofista para persuadi-lo
nem falso oráculo para disuadi-lo

Meu amor é um castelo
e uma fortaleza mental o escuda
em que não há mercado ao falsário
nem transposição fácil ao barbário

Meu amor é um castelo
e um dia deixará de reinar
mas a terra que o firma
essa hei de lembrar
toda boa pretensão que o redima

E apesar de todas as caminhadas
de todas as tropeçadas
de todas as falhas na estrada
de todas as feridas dilaceradas

Apesar de todos os copos terminados
de todos os tragos no cigarro
de todos os rostos do passado
de todos os feitiços lançados

apesar de todas as promessas esquecidas
de todas as garrafas de bebida
de todas aquelas que só queriam ser amigas
de todas as más faladas linguas

depois do chão de giz
depois de limpar o nariz
depois de tentar ser feliz
e bailar com uma meretriz

Depois de acender o lampião
depois de dormir no velho colchão
depois de ter gritado em vão
depois de ter vomitado no chão

Depois das histórias
das vitórias
do gosto da glória
que surgem na memória

Dos Rios, Dos sorrisos
que achavam esquisito.
Das tentativas de escapar do abismo.

Eu continuo vazio.

                                                             Haz Aza oTh Tothur

Seria trágico se não fosse irônico
O rumo das coisas que vão.
Pois aqueles que sóbrios são,
Sóbrios e sãos sempre serão.

Mas certa vontade do insano,
Cessa jamais, mesmo escondida.
E ao descer às noites suas de devassidão
Este se vale desta loucura contida.

Sóbrios jamais em corpos limpos
Abririam a boca para de álcool enchê-los.
Sabendo os riscos e consequências
Nunca poriam abaixo da língua um selo.

Mas ao insano, não.
Já late em seu inconsciente,
Mesmo calmo e ainda são,
Um desejo de perder-se inconsequente.

Abre a boca fácil, livre de temor,
Aos primeiros goles, vindos sem demora.
Coloca o amargo sob a língua
E ainda calmo, seu receio ignora.

E se perde nos perigos,
Se encontra em aventuras,
Se descontrola dos sentidos,
E se liberta de amarguras.

Feliz, dança sem som,
De pupilas em negrume,
De dedos sensitivos,
Louco, cambaleia em perdição
Acorda noutro dia então
Cansado, quebrado, irritado
Com dores nos olhos secos
E da noite remorsos culpados.

Se arrasta na ressaca
E no sussurro de sua sã mente
Sem saber onde a verdade está
Sabe que se repetirá.

Mas no primeiro plano se ilude
Mente, ao amargurado garantir
"Nunca mais beberei ou qualquer coisa usarei"
"Nunca mais de casa irei sair".

Pouco tempo depois, lá está em sua alegria,
Ainda são, aparente sóbrio, a abrir a boca
Para enchê-la mais de histórias, todas loucas
Perigosas de bebidas, fumaças, lisergia.

Existe certa estupidez
Na maneira que teimoso insiste
No ritual, na rotina, no ciclo
Em fingir do "sempre" um "talvez"

Sóbrio, do poço se joga ao fundo.
Limpo, se suja de substâncias.
Fácil, ignora seu bom senso
E outra vez cairá no mundo.

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Âncora 1
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